-->

Universidad de Salamanca

Outro dia mesmo postei sobre o primeiro dia de aula e agora já estou na minha terceira semana na Universidade de Salamanca. Tempo suficiente para observar algumas coisas e fazer alguns comentários:

Campus Unamuno

- Não tem bebedouros na universidade. Se tem, estão bem escondidos. No máximo você encontra máquinas que vendem garrafinhas de água. Se você não estiver a fim de pagar, pode dar um pulinho no banheiro e tomar água da torneira!

- O jornal El Mundo, um dos maiores da Espanha, é distribuído gratuitamente para os alunos. Não sei de quem foi a idéia. Se é a universidade que compra e distribui, ou se é uma estratégia do próprio jornal, o que eu acredito ser mais provável. Os universitários são um público em potencial muito forte. Ao mesmo tempo que precisam ter acesso às notícias, ainda não têm dinheiro para fazer uma assinatura [ou preferem gastar esse dinheiro com festas]. Mas, muito em breve serão profissionais de sucesso [!], que ganham dinheiro, e já estarão habituados a ler aquele veículo!
Independente de quem é o responsável, eu tô adorando poder ler jornal todos os dias!

- A biblioteca daqui é muito movimentada. Bom, eu não posso falar muito sobre a biblioteca da UFJF, porque não frequentava muito. Mas aqui, por incrível que pareça, passo pelo menos umas duas horas do meu dia lá, estudando [isso mesmo! Tem hora que nem eu acredito], e tenho muitos companheiros! Dizem que, na época dos exames, os alunos ficam tão alucinados pelo estudo que as bibliotecas da universidade funcionam 24h por dia! 
Mas o mais interessante da biblioteca é a sinfonia de tosses. É um efeito no estilo do bocejo. Basta um tossir que desencadeia uma sequencia de tosses dos mais variados tipos. Adeus concentração, né?!

- As carteiras aqui não são separadinhas como normalmente são no Brasil. É uma mesa comprida, com vários assentos pregados na mesa comprida da fileira de trás [deu pra entender?]. De modo que, se você está no meio da fileira e é acometido por uma mega vontade de fazer xixi no meio da aula, você tem que pedir pra toooodos os seus coleguinhas se levantarem para que você saia. Nisso a aula já parou e estão todos acompanhando os seus movimentos. Ou seja, não se sente no meio da fileira. Ou segure o xixi!

- Por último, a essência da dinâmica em sala de aula é igual a do Brasil. Às vezes o professor pergunta e ninguém responde. O professor fala sobre coisas que os alunos deveriam saber, mas não sabem, ou fingem que sabem. Tem professor que acaba a aula uma hora antes do previsto. Os alunos podem sair no meio da aula. Alguns professores deixam até comer. De vez em quando rolam aqueles comentariozinhos com o coleguinha do lado [minha coleguinha sueca disse que no país dela isso é inadmissível!].  Mas um detalhe importante, não vi ninguém dormindo na aula, ou deitado na carteira. 

As eleições brasileiras na Espanha

Domingo, dia 3 de outubro. Dia de eleições presidenciais no Brasil. Infelizmente não posso participar e exercer meu dever de cidadã. Eleições presidenciais só acontecem de quatro em quatro anos e calhou da minha viagem ser justamente em ano eleitoral. Só espero que os brasileiros me representem bem ao irem às urnas hoje. 


Mas o assunto aqui não é bem esse. Já que eu não estou no Brasil, acompanho as notícias pela internet. Hoje vou recuperar um pouquinho as raízes do blog e fazer uma comparação da coberturas das eleições feitas pelos dois principais jornais espanhóis: o El País [que eu já falei bastante dele por aqui] e o El Mundo.


El País

El Mundo

Em ambos os jornais, a eleição presidencial brasileira teve destaque na página principal. Um fato inusitado é que o jornal tido como de direita, o El Mundo, dá mais destaque à Dilma que o jornal de esquerdra, El País. A maior parte da matéria do El Mundo fala da candidata de Lula, e também é ela quem está na foto que ilustra a matéria e seu nome está no título. O texto descreve o dia da candidata, fala da possibilidade de vitória no primeiro turno e traz uma declaração de Lula a respeito do processo eleitoral. O resto da matéria se dedica a falar um pouco sobre Marina e Serra, nessa ordem, que também é a ordem de comparecimento dos principais candidatos às urnas. O texto ressalta, ainda, o crescimento de Marina nas pesquisas.


O jornal fez até um cabeçalho especial para as eleições brasileiras e tem uma página que contém, além da matéria citada acima, os perfis dos principais candidatos, com títulos ótimos, diga-se de passagem, e uma matéria crítica, que diz que nenhum desses candidatos apresentou uma proposta formal de governo.


O El País também fala da possibilidade de vitória no primeiro turno e diz que mesmo que haja segundo turno, as pesquisas apontam a vitória de Dilma como certa. E dá destaque ao fato de que ela será a primeira mulher a ser presidente do "colosso brasileiro" e a segunda pessoa que participou de uma guerrilha nos anos 70 e agora chega ao poder democrático (o primeiro foi o presidente do Uruguai, José Mujica).


A matéria do El País é mais completa e explicativa, porque além de falar dos candidatos à presidência, explica que serão eleitos também governadores, deputados e senadora. Fala um pouco do processo eleitoral e das urnas eletrônicas - "La votación se realiza a través de un moderno sistema electrónico". E não poderia terminar sem falar um pouco de Lula, que deixa o governo com 80% de popularidade, segundo o jornal.

Huelga General

Não sei se vocês viram no noticiário, mas hoje os trabalhadores da Espanha estão em "huelga general", ou, em bom português, "greve geral". A paralização já vinha sendo comunicada e convocada há algum tempo. Há cerca de três semanas vários cartazes começavam a ser espalhados em pontos estratégicos da cidade. Com a proximidade, as ações se intensificaram através de panfletagem e anúncio em carros de som.






A mobilização é encabeçada pela União General dos Trabajadores [UGT] e pelo Confederación Sindical de Comisiones Obreras [CCOO], que exigem uma retificação das medidas previstas na "Reforma Laboral", algo como reforma trabalhista. De acordo com os organizadores, a política do executivo só atrasa a recuperação econômica da Espanha e condena o país ao aumento do desemprego, causado pela facilidade que os empregadores vão ter para demitir seus funcionários quando a reforma for colocada em prática.


A greve é geral, mas nem todos aderiram. No comércio, pelo que eu pude ver aqui em Salamanca, assim como no resto do país, a maioria das lojas estavam abertas, já que esta foi uma das áreas menos afetadas. O setor da educação também parece que funcionou bem. Meus professores não aderiram à greve. Tive todas as aulas do dia. Um deles chegou a comentar que concorda com os motivos, mas não com a metodologia e os impactos que ela pode causar na economia [que já não vai muito bem].


Já na prestação de serviços, principalmente no setor de transporte, não foi assim. A greve interferiu e muito na vida das pessoas. Um bom exemplo é meu caso [e de mais três amigos]. Estavamos com uma viagem programada para Munich, na Alemanha. Iríamos ao Oktoberfest [sim! o original]. Escolhemos justamente o dia 29 para a viagem [porque era o dia com passagens mais baratas]. Nem nos lembramos da greve. Mas depois que ficamos sabendo dela, também não pensamos que pudesse interferir na nossa viagem, já que se tratava de um vôo internacional. Pelo menos não até ontem à noite, quando recebemos um e-mail da companhia aérea dizendo o seguinte: "Unfortunately due to the failure of the Spanish Government to protect non Spanish airline's flights with minimum service guarantees, Ryanair have been forced to cancel all domestic flights in Spain on 29th Sep and most International flights to/from Spain on 29th Sep.". O Governo Espanhol não se comprometeu a proteger os vôos de companhias aéras não espanholas com o mínimo de garantias de serviços. Por isso, a Ryanais foi forçada a cancelar todos os vôos domésticos e alguns internacionais [inclusive o meu!] do dia 29 de setembro. Além do vôo, também senti os efeitos da greve quando fui à rodoviária trocar uma passagem [a de ida pra Madri, para pegar o vôo pra Alemanha...] e a única companhia que estava funcionando era a que eu ia viajar através dela [por sorte!].


De acordo com os meios de comunicação, os sindicatos afirmam que houve uma adesão de 70% dos trabalhadores. Grupos de grevistas organizaram manifestações por todo o dia no país, inclusive nas Ilhas Canárias. Em Salamanca, cerca de 200 pessoas se aglomeraram na Plaza Mayor, pela manhã, e seguiram com a manifestação pelas principais ruas da cidade. Madri e Barcelona sediaram os maiores protestos. No rádio e na TV, os plantões sobre a greve eram quase sequenciais.


Agora ao fim do dia, os jornais destacam a fala do Ministro do Trabalho, segundo a qual a greve teve um efeito moderado e a partir de amanhã haverá muito trabalho para fazer.


A cobertura completa da greve você pode conferir no site dos dois principais jornais da Espanha, o El País e o El Mundo.