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A dialética da atividade física e da disposição

Dizem por aí que fazer atividade física tem o poder de deixar as pessoas mais dispostas. Como até o momento eu fui uma pessoa sedentária durante boa parte da minha passagem pelo mundo, acreditava cegamente nessa afirmação. Era dessas coisas tipo “não pode tomar leite e chupar manga porque faz mal”, sabe?! Eu nunca tinha testado pra ver se era isso mesmo, mas acreditava. Até porque, no caso da manga com leite, meu paladar já sinalizava que era melhor nem tentar (boa coisa não deveria ser).

Só que um dia a idade foi chegando e o peso na balança subiu mais que a bolsa de valores se o Aécio tivesse ganhado as Eleições. Então eu resolvi que não tinha mais jeito. Era chegada a hora de me exercitar. E, de quebra, comprovar se esse negócio de disposição era verdade mesmo.

Me recomendaram que eu fizesse a atividade de manhã, para dar disposição pro dia que estava começando. Porque se eu fizesse a noite, chegaria em casa cheia de energia e amor pra dar e demoraria a dormir. Ouvi vários testemunhos do gênero: “quando eu malho a noite chego em casa e vou cozinhar, limpar a casa, levar o cachorro pra passear. Só consigo dormir hoooooras depois.”

Segui o conselho e passei a acordar 6h30 para fazer minhas atividades. O que foi sinônimo de: acordar 6h30 e ficar de 8h às 20h bocejando de 15 em 15 minutos e sonhando acordada com um edredom e um travesseiro. Essa disposição aí que tanto me falaram eu não sei pra onde foi, não.

Vamos lá: fazendo atividade física você gasta mais energia, logo você tem menos estoque de energia para gastar ficando disposto. Portanto, a conta não fecha, certo? Você não fica com mais disposição. Você fica com MENOS disposição porque a energia do dia já foi pro saco às 7h30 da manhã. É uma luta desigual. Como se não bastasse o sofrimento para acordar cedo, ainda temos o desafio de ficar acordado o dia todo.

Queria muito encontrar quem difundiu essa crença, sabe?! Ou algum acadêmico que tenha estudado e chegado a essa conclusão. Assim eu conseguiria entender exatamente qual seria o conceito de disposição defendido pela teoria. Porque quando eu volto do exercício, às 8h da manhã, a única coisa que tenho disposição é para deitar na minha cama e dormir de novo. Até meio dia, se possível.  



Sou minei...

Eu sou mineira. Nascida e criada em Governador Valadares, Leste de Minas. Pra quem não sabe ou precisa de uma ajudinha para se localizar, o Leste de Minas fica próximo das divisas com o Espírito Santo e a Bahia. Logo, como Minas não tem mar, minhas férias sempre eram em um dos dois estados. Houve um período, que durou uns 10 anos, em que as férias foram predominantemente capixabas. Então, todo mês de janeiro eu me transformava em “mineiraba”.

Eram temporadas nos balneários mineiro-capixabas de Guriri (uma ilha da cidade de São Mateus) e Conceição da Barra. Tinha Guarapari também. Mas lá a gente costumava deixar pro pessoal de BH. Era tempo de comer moqueca capixaba e caranguejo, catar conchinha e tatuí na praia e, já na adolescência, de curtir o trio elétrico ao som de Beto Cauê. Tudo isso banhado por aqueles mares de águas escuras do Norte do Espírito Santo.

Avançando um pouco no tempo, me mudei para Juiz de Fora, cidade mineira quase na divisa com o Rio de Janeiro. Lá eu descobri meu lado “mineirana”, mineira com baiana. É que lá eles cismaram que eu era da Bahia, por conta um tal sotaque baiano que eu nem sabia que tinha. Era eu abrir a boca que as pessoas perguntavam: “De onde cê é? Da Bahia?”. E sem entender nada eu respondia: “Eu sou mineira, uai!”. É que como Valadares é pertinho da Bahia, sem perceber a gente já ia entrando no clima e pegando aquele sotaque cantado. Cantádo e líndo, como diria Caetano.

Só que o tempo em Juiz de Fora (que como eu já mencionei fica perto do Rio) já foi me preparando para o que estava por vir. Aos poucos fui perdendo o sotaque baiano e ganhando uma ginga carioca. Quando eu dei por mim, já estava morando no Rio, com direito a comprar garrafa de 1,5 litro de mate no supermercado, choppinho depois do expediente e corridinha na orla no final de semana. Ou seja, uma autêntica “mineiroca”.

Acontece que eu arrumei um namorado que em um dado momento inventou de morar em São Paulo. Aí vou eu passar os finais de semana na Terra da Garoa, na ponte aérea (na verdade era ponte rodoviária, mas tudo bem) Rio-São Paulo. Em pouco tempo eu já conhecia todas as linhas de metrô, vários bares e restaurantes da Vila Madá, o Ibira e os museus todos. Era pra paulista nenhum botar defeito. Uma autêntica "mineirista" de final de semana.

De estado em estado já "zerei" o sudeste + um estado do nordeste. Quem sabe um dia eu consigo "mineirar" tudo e “zerar” o Brasil? 


No cabeleireiro


Um dia ela acordou e decidiu que o cabelo estava ruim. Na verdade já vinha ruim há uma semana ou mais. Cansada de "bad hair day" que evolui para "bad hair week" e assim sucessivamente, ela resolveu que estava na hora de acabar com essa palhaçada e cortar o mal pela raiz. Ou melhor, pelas pontinhas.

Saiu de casa um pouco mais cedo do que o horário normal e antes de ir trabalhar passou no salão de beleza mais próximo de casa. Porque com ela não tem dessas coisas de cabeleireiro de confiança.  O negócio é praticidade, resolver o problema o mais rápido possível. Afinal de contas, cabelo cresce. E se ficar ruim, prende. Ou coloca um arco, faixa, grampo, lenço... Se de tudo ainda não estiver bom, dá uma caprichada no creme pra pentear, uma amassada nas pontas e vida que segue, como se estivesse super à vontade com aquele cabelo desgrenhado.

Obviamente, devido à sua natureza pragmática, ela não marcou horário. É sempre assim. Ela resolve de uma hora pra outra que precisa cortar o cabelo impreterivelmente o mais rápido possível. Não dá pra ligar, ver a agenda, marcar horário. Perda de tempo.

“Bom dia! Quero cortar cabelo. Tem algum profissional disponível?”

A recepcionista normalmente assusta, já que cortar cabelo é uma coisa premeditada. Ninguém acorda e de repente tem vontade de cortar o cabelo. Normalmente as mulheres pensam, refletem, hesitam e marcam horário. Mas com ela é diferente. Ela resolve na hora mesmo.

Por sorte uma dessas mulheres que tinha premeditado e marcado horário não apareceu naquela manhã. Deve ter se arrependido e não foi (esse negócio de marcar tem dessas coisas: dá tempo de se arrepender e desmarcar ou não ir). Como ela não tinha preferência de profissional, podia ser aquele mesmo que estava com o horário vago. 

O profissional, então, a encaminhou para cadeira. Ela se sentou e soltou o cabelo (a coisa estava tão feia que ela tinha saído de casa de coque). Ele perguntou se ela usava secador, chapinha ou era adepta de qualquer outra prática de ajeitamento capilar. Ela disse que não, que nem secador tinha. Ele logo concluiu que ela queria algo prático.

Então foram para o lavatório. Já de volta à cadeira da transformação o cabeleireiro foi fazendo seu trabalho. Acerta aqui, apara ali, repica a frente. Voila! Pronto! A liberdade de um cabelo novo.

Ao final o cabeleireiro dá uma ajeitada e pergunta com o que ela prefere pentear o cabelo: pente, escova...? Ela, já se levantando da cadeira, diz: “Com nada, não. Assim está ótimo!”. Há 8 anos, depois que sua escova de cabelo sumiu na republica onde morava com outras 12 meninas, nunca mais penteou o cabelo. E era feliz assim, sem secador e sem pente na sua rotina.