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A saga do mineiro pelo Sudeste

Uma vez me perguntaram: “fala um ponto positivo e um ponto negativo do Rio?”. Eu, sem pensar muito, respondi: “Negativo – trânsito. Positivo – praia.”. Assim, objetivamente, com apenas uma palavra para cada um dos itens.

A coisa da praia é porque sou mineira. E mineiro não pode com praia. Pode estar chovendo, o mar pode ser marrom, a água pode ser fria, mas a gente se encanta muito com esse negócio de areia e água salgada. Tem aquela história de que a grama do vizinho é sempre mais verdinha. No caso do mineiro é como se a gente morasse numa casa sem grama e grama do vizinho na verdade fosse a “água do mar” do vizinho. Sempre invejaremos (até o dia em que conseguirmos anexar o Espírito Santo!).

Já o trânsito dispensa apresentações. O trânsito dessa cidade é coisa sem explicação. Ou melhor, tem explicação. A cidade é como um circulo em volta de uma floresta com uma pedra no meio. No caso, a pedra é aquela que tem o Cristo em cima, conhecida como Corcovado, sabe? Aí, se acontece alguma coisa que atrapalhe o trânsito de um lado da cidade, certamente repercutirá do outro lado da cidade, como efeito dominó num formato circular. Mais cedo ou mais tarde todas as pedras de dominó estão caídas, esperando o engarrafamento passar.

E aí é que vem uma questão importante: quando um mineiro tem que escolher entre Rio e São Paulo ele fica com o Rio. De acordo com a minha teoria, o motivo é muito simples: porque São Paulo tem trânsito e não tem praia. Neste momento sempre aparece alguém pra dizer: “Ah, mas em São Paulo você pega a estrada e em uma horinha está na praia”. Sem contar o engarrafamento, né?! Pode até ter praia a uma horinha, mas soma-se a isso o engarrafamento formado por todas as pessoas que tiveram essa mesma ideia e você demora oito horinhas pra chegar na praia. Se bobear e resolver vir pro Rio é capaz de chegar mais rápido do que nessa praia aí de uma horinha de distância.

Até tem mineiro que prefere São Paulo. Porque dizem que São Paulo é bom pra trabalhar. E mineiro gosta muito de trabalhar. Trabalha tanto quanto qualquer paulista.  A diferença de mineiro pra paulista é que mineiro é mais na dele. Não tem muito esse negócio de competição, não. Se matem aí vocês. E se precisarem de alguma coisa (que não seja ajudar a matar o coleguinha) avisa pra gente, valeu?

Temos nossas diferenças com os cariocas também. No Rio a gente passa por um árduo processo de adaptação. Tem que se acostumar com os palavrões, o tom de voz alto, os cabelos bagunçados, a informalidade e intimidade das pessoas que nem nos conhecem direito mas já nos consideram pra caralho. Só que no Rio tem praia. E a gente suportaria qualquer coisa pra fica perto dessa preciosidade da natureza. Depois de um tempo a gente, inclusive, fica amigo dos cariocas e também passa a considera-los pra caralho.

Depois de morar no Rio, mineiro não quer mais saber de outro lugar. Tem aqueles que não gostam, é verdade. Mas, ó, vou falar procês que esse pessoal é minoria. Porque esse trem de praia mexe com nosso coração de um jeito que eu não sei explicar. Nossinhora! E quando um mineiro tem que sair do Rio pra ir pra São Paulo é um sofrimento do tamanho mar.

Mas graças à Globalização, na pior da hipóteses, tanto no Rio quanto em São Paulo, a gente tem acesso a pão de queijo pra nos consolar. 


Vida e Morte D. Emília

A vida e a morte são coisa engraçada. Vão e vêm sem pedir licença. Andam uma atrás da outra, porque para que uma chegue a outra tem que ter chegado antes. E hoje, com essa tecnologia toda, ficou tudo tão banal que a notícia da morte pode chegar quando você está na fila da farmácia, enquanto espera para pagar um desodorante, por meio de um comunicado em um grupo de Whatsapp. Assim, sem preparação, sem um rodeio para ir assentando o terreno para a notícia que vem, sem um copo de água, um “você não prefere sentar?” ou um “tenho uma notícia pra te dar”.

Eu confesso que mesmo eu, que choro à toa, achei que não fosse chorar quando esse momento chegasse. Achei que estava preparada. Na verdade, vinha me preparando há algum tempo para esse dia, que poderia acontecer a qualquer momento. Afinal, a vozinha já tinha 103 anos. Foram duas Guerras Mundiais, uma Guerra Fria, o Muro de Berlim foi construído, o Muro de Berlim caiu e ela ainda teve fôlego para lançar seus últimos suspiros quando a queda deste mesmo muro completou 25 anos. Mesmo sem nem saber direito onde essa tal de Berlim fica, ela viveu enquanto tudo isso acontecia.

Ela viu a história acontecer. Viu muita gente nascer, inclusive sob seu teto. Também viu muita gente crescer sob seu teto e até viu gente morrer sob esse mesmo teto. Teto esse que não podia ser diferente, era como o coração dela: coração de mãe, de avó, de bisavó, de tataravó. E também de irmã, de tia, de sogra. Sempre cabia mais um. Difícil achar alguém na família que hoje tenha mais de 40 anos e que não tenha passado nem uma temporadazinha sequer na casa dela. Até a mim ela abrigou. Quando eu voltava da escola, meus pais ainda no trabalho, eu ficava lá, na casa dela, esperando meu pai ou minha mãe irem me buscar só mais tarde.

É a história de luta de uma mulher que superou a morte do marido, que criou os filhos e criou netos como se fossem filhos. Que sobreviveu a câncer e toda sorte de enfermidades que a idade traz consigo. Mas sempre sem perder a consciência, a lucidez, o bom humor e a capacidade de se adaptar a todas as mudanças sociais, culturais e tecnológicas que aconteciam ao seu redor (como prova, o selfie de beijinho da foto!).

Ela deixou muita gente furar sua fila na hora da morte. “Pode passar! Eu vou depois. Eu aguento.” E quando a gente achou que ela estava fraquinha, ela tirou forças sei lá de onde e se reergueu, fazendo fisioterapia e usando aparelho para respirar. Ganhou muito mais fôlego para soltar suas tiradas impagáveis e memoráveis durante mais alguns anos. Dizem que as pessoas vão ficando velhas e vão ficando rabugentas. Mas não a D. Emília.

E no fim das contas eu, que estava preparada para não chorar, chorei ali na porta da farmácia. Mas não chorei de tristeza. Chorei ao lembrar de tudo isso, ouvindo minha mãe falar ao telefone sobre as coisas que minha bisavó passou, sempre com um sorriso no rosto. Uma lição de vida pronta, em forma de pessoa. Chorei de orgulho de ter como origem aquele ventre.




A dialética da atividade física e da disposição

Dizem por aí que fazer atividade física tem o poder de deixar as pessoas mais dispostas. Como até o momento eu fui uma pessoa sedentária durante boa parte da minha passagem pelo mundo, acreditava cegamente nessa afirmação. Era dessas coisas tipo “não pode tomar leite e chupar manga porque faz mal”, sabe?! Eu nunca tinha testado pra ver se era isso mesmo, mas acreditava. Até porque, no caso da manga com leite, meu paladar já sinalizava que era melhor nem tentar (boa coisa não deveria ser).

Só que um dia a idade foi chegando e o peso na balança subiu mais que a bolsa de valores se o Aécio tivesse ganhado as Eleições. Então eu resolvi que não tinha mais jeito. Era chegada a hora de me exercitar. E, de quebra, comprovar se esse negócio de disposição era verdade mesmo.

Me recomendaram que eu fizesse a atividade de manhã, para dar disposição pro dia que estava começando. Porque se eu fizesse a noite, chegaria em casa cheia de energia e amor pra dar e demoraria a dormir. Ouvi vários testemunhos do gênero: “quando eu malho a noite chego em casa e vou cozinhar, limpar a casa, levar o cachorro pra passear. Só consigo dormir hoooooras depois.”

Segui o conselho e passei a acordar 6h30 para fazer minhas atividades. O que foi sinônimo de: acordar 6h30 e ficar de 8h às 20h bocejando de 15 em 15 minutos e sonhando acordada com um edredom e um travesseiro. Essa disposição aí que tanto me falaram eu não sei pra onde foi, não.

Vamos lá: fazendo atividade física você gasta mais energia, logo você tem menos estoque de energia para gastar ficando disposto. Portanto, a conta não fecha, certo? Você não fica com mais disposição. Você fica com MENOS disposição porque a energia do dia já foi pro saco às 7h30 da manhã. É uma luta desigual. Como se não bastasse o sofrimento para acordar cedo, ainda temos o desafio de ficar acordado o dia todo.

Queria muito encontrar quem difundiu essa crença, sabe?! Ou algum acadêmico que tenha estudado e chegado a essa conclusão. Assim eu conseguiria entender exatamente qual seria o conceito de disposição defendido pela teoria. Porque quando eu volto do exercício, às 8h da manhã, a única coisa que tenho disposição é para deitar na minha cama e dormir de novo. Até meio dia, se possível.  



Sou minei...

Eu sou mineira. Nascida e criada em Governador Valadares, Leste de Minas. Pra quem não sabe ou precisa de uma ajudinha para se localizar, o Leste de Minas fica próximo das divisas com o Espírito Santo e a Bahia. Logo, como Minas não tem mar, minhas férias sempre eram em um dos dois estados. Houve um período, que durou uns 10 anos, em que as férias foram predominantemente capixabas. Então, todo mês de janeiro eu me transformava em “mineiraba”.

Eram temporadas nos balneários mineiro-capixabas de Guriri (uma ilha da cidade de São Mateus) e Conceição da Barra. Tinha Guarapari também. Mas lá a gente costumava deixar pro pessoal de BH. Era tempo de comer moqueca capixaba e caranguejo, catar conchinha e tatuí na praia e, já na adolescência, de curtir o trio elétrico ao som de Beto Cauê. Tudo isso banhado por aqueles mares de águas escuras do Norte do Espírito Santo.

Avançando um pouco no tempo, me mudei para Juiz de Fora, cidade mineira quase na divisa com o Rio de Janeiro. Lá eu descobri meu lado “mineirana”, mineira com baiana. É que lá eles cismaram que eu era da Bahia, por conta um tal sotaque baiano que eu nem sabia que tinha. Era eu abrir a boca que as pessoas perguntavam: “De onde cê é? Da Bahia?”. E sem entender nada eu respondia: “Eu sou mineira, uai!”. É que como Valadares é pertinho da Bahia, sem perceber a gente já ia entrando no clima e pegando aquele sotaque cantado. Cantádo e líndo, como diria Caetano.

Só que o tempo em Juiz de Fora (que como eu já mencionei fica perto do Rio) já foi me preparando para o que estava por vir. Aos poucos fui perdendo o sotaque baiano e ganhando uma ginga carioca. Quando eu dei por mim, já estava morando no Rio, com direito a comprar garrafa de 1,5 litro de mate no supermercado, choppinho depois do expediente e corridinha na orla no final de semana. Ou seja, uma autêntica “mineiroca”.

Acontece que eu arrumei um namorado que em um dado momento inventou de morar em São Paulo. Aí vou eu passar os finais de semana na Terra da Garoa, na ponte aérea (na verdade era ponte rodoviária, mas tudo bem) Rio-São Paulo. Em pouco tempo eu já conhecia todas as linhas de metrô, vários bares e restaurantes da Vila Madá, o Ibira e os museus todos. Era pra paulista nenhum botar defeito. Uma autêntica "mineirista" de final de semana.

De estado em estado já "zerei" o sudeste + um estado do nordeste. Quem sabe um dia eu consigo "mineirar" tudo e “zerar” o Brasil? 


No cabeleireiro


Um dia ela acordou e decidiu que o cabelo estava ruim. Na verdade já vinha ruim há uma semana ou mais. Cansada de "bad hair day" que evolui para "bad hair week" e assim sucessivamente, ela resolveu que estava na hora de acabar com essa palhaçada e cortar o mal pela raiz. Ou melhor, pelas pontinhas.

Saiu de casa um pouco mais cedo do que o horário normal e antes de ir trabalhar passou no salão de beleza mais próximo de casa. Porque com ela não tem dessas coisas de cabeleireiro de confiança.  O negócio é praticidade, resolver o problema o mais rápido possível. Afinal de contas, cabelo cresce. E se ficar ruim, prende. Ou coloca um arco, faixa, grampo, lenço... Se de tudo ainda não estiver bom, dá uma caprichada no creme pra pentear, uma amassada nas pontas e vida que segue, como se estivesse super à vontade com aquele cabelo desgrenhado.

Obviamente, devido à sua natureza pragmática, ela não marcou horário. É sempre assim. Ela resolve de uma hora pra outra que precisa cortar o cabelo impreterivelmente o mais rápido possível. Não dá pra ligar, ver a agenda, marcar horário. Perda de tempo.

“Bom dia! Quero cortar cabelo. Tem algum profissional disponível?”

A recepcionista normalmente assusta, já que cortar cabelo é uma coisa premeditada. Ninguém acorda e de repente tem vontade de cortar o cabelo. Normalmente as mulheres pensam, refletem, hesitam e marcam horário. Mas com ela é diferente. Ela resolve na hora mesmo.

Por sorte uma dessas mulheres que tinha premeditado e marcado horário não apareceu naquela manhã. Deve ter se arrependido e não foi (esse negócio de marcar tem dessas coisas: dá tempo de se arrepender e desmarcar ou não ir). Como ela não tinha preferência de profissional, podia ser aquele mesmo que estava com o horário vago. 

O profissional, então, a encaminhou para cadeira. Ela se sentou e soltou o cabelo (a coisa estava tão feia que ela tinha saído de casa de coque). Ele perguntou se ela usava secador, chapinha ou era adepta de qualquer outra prática de ajeitamento capilar. Ela disse que não, que nem secador tinha. Ele logo concluiu que ela queria algo prático.

Então foram para o lavatório. Já de volta à cadeira da transformação o cabeleireiro foi fazendo seu trabalho. Acerta aqui, apara ali, repica a frente. Voila! Pronto! A liberdade de um cabelo novo.

Ao final o cabeleireiro dá uma ajeitada e pergunta com o que ela prefere pentear o cabelo: pente, escova...? Ela, já se levantando da cadeira, diz: “Com nada, não. Assim está ótimo!”. Há 8 anos, depois que sua escova de cabelo sumiu na republica onde morava com outras 12 meninas, nunca mais penteou o cabelo. E era feliz assim, sem secador e sem pente na sua rotina.






O que eu mais gosto de fazer

Desde pequena eu sempre fui das letras. Na escola, não sei em que ano, fiz uma atividade que pedia pra completar a frase "Na escola o que eu mais gosto de fazer é:". E eu completei a frase com "Escrever". Nunca gostei de tabuada. Até hoje, se você pedir pra responder rápido, eu vou gaguejar diante de um "7x8" da vida. Aliás, engasgarei para boa parte da tabuada do 7 e do 8.

Daí veio uma certa rejeição para com a matemática, coitada. E, consequentemente, para com a física. Mas o caso da física é bem mais grave. Inclusive gerou traumas na época do falecido vestibular. Quando fiz a prova da UFMG, em 2006, alcancei 98 pontos de 120 (pontuação que me garantiria na segunda etapa até se eu tivesse me inscrito para medicina). Acontece que era necessário acertar pelo menos cinco questões em cada uma das disciplinas. E na maldita da física eu acertei apenas quatro, o que me desclassificou. Eu, que já não gostava, passei a ter uma repulsa a qualquer coisa que remetesse a física, até um inocente velocímetro de carro.

E o vestibular em questão era para qual curso? Comunicação Social - Jornalismo. Tudo isso porque eu tinha um sonho de ser jornalista da Folha de S. Paulo. Jornal impresso, preto no branco, para fazer todos os dias o que eu mais gostava desde a minha alfabetização: escrever.

Mas onde eu quero chegar com essa história toda? É que o tempo foi passando, a Folha de S. Paulo foi ficando cada vez mais distante. E quem apareceu na minha vida? A matemática. Eram gráficos de fluxo de pessoas e veículos, métricas de redes sociais, planilhas de orçamento e fluxo de caixa, análise de resultado de campanha...

Eu, que até então era das letras, passei a ser profissionalmente dos números. E tomei gosto pela coisa. Nas horas vagas, o dia a dia corrido depois da mudança pra cidade grande, com roupa pra lavar, supermercado pra fazer, horas no trânsito e no trabalho, me afastaram do que era a minha atividade favorita. Larguei o blog de lado e, de dois em dois meses, quase que por obrigação, escrevo uma crônica para uma revista da minha cidade, a convite da minha tia.

Mas chega uma hora na vida que você repensa e pensa se está conseguindo fazer o que realmente gosta. E o que eu gosto é de tocar as pessoas de alguma forma com as palavras. E palavras escritas, vamos deixar bem claro. Porque quem me conhece sabe que eu não gosto muito de falar.

Então aqui estou eu, três anos depois, atualizando meu adormecido blog, na esperança de conseguir fazê-lo com mais frequência, ficar famosa na internet e a Folha de S. Paulo me convidar pra ter uma coluna semanal de crônicas.

Pra lá de Marrakech

Antagonismos. Disso é feito o Marrocos.
Lá eu vivi do completo caos-barulho-bagunça-desordem à completa tranquilidade-paz-silencio.
Mas vamos começar pelo começo. O sol! Ahhh o sol! Há mais de três meses eu não via o sol direito. Vocês não sabem o que é isso pra uma pessoa que nasceu em Governador Valadares. E quando ele aparecia e se juntava com o céu azul era só pra enganar bobo. O frio continuava o mesmo. Ou até pior. 
Aí eu chego no Marrocos e tá calor! Não o calor valadarense, lógico. Mas quente o suficiente pra ficar só de camiseta! Uma emoção. Depois de três meses me encapotando pra ir ali na esquina, poder tirar o casaco foi um momento memorável.
Mas vamos aos perrengues [que não podiam faltar]. Já começou no aeroporto. Fomos [eu e Mylena] passar pelo controle de passaporte, aí tinha que entregar uma fichinha que eles dão no avião. Um dos campos a serem preenchidos era o endereço do lugar que eu ia ficar no Marrocos. E quem disse que eu sabia? Deixei em branco. Quando eu fui pra Rússia aconteceu o mesmo e não deu problema...
Mas no Marrocos é diferente. A moça perguntou e eu disse que não sabia. Aí ela disse que eu não poderia entrar no país. What the fuck! Como assim, tia? E se eu tivesse ido sem reservar lugar pra ficar e fosse procurar lá?
Bom, o jeito era esperar nossos 12 companheiros de aventura [isso mesmo. DOZE] que estavam vindo de Portugal e iriam encontrar com a gente no aeroporto [daí a duas horas!]. Eles sim tinham o endereço. Não sem antes me culpar pela minha idiotice de ir pra um lugar com hostel reservado e não me dar ao trabalho nem de anotar o nome do lugar. E se o pessoal de Portugal não chegasse? Como a gente ia fazer? Ficar no aeroporto até dar o dia de ir embora? De uma maneira ou de outra, o jeito era esperar [pra variar um pouco]. Nesse meio tempo, um moço, vendo que a gente tava ali à vontade nas cadeirinhas, já tinha rancado os casacos e tava batendo um papo 10, foi perguntar o que a gente tava fazendo ali. A gente explicou e ele pediu pra acompanhar ele. Chamou a moça que não deixou a gente entrar, falou alguma coisa com ela. Ela pegou nosso passaoporte [com cara de cu], carimbou e nós entramos! Aí sim podiamos comemorar. "A GENTE TÁ NA ÁFRICA!"
Ao sair na rua já percebi que tinha cometido um erro. Lembra num post anterior que eu disse que o trânsito de Amsterdam era caótico? Esquece. Caos mesmo é o trânsito do Marrocos. Pior, acho que só o da Índia. Mas só por causa dos elefantes, que são um componente de peso. 
Assistam a esse vídeo pra vocês entenderem um pouco do que eu tô falando [desconsiderem as marmotas - ou considerem também...]:


Crédito para o colega Thiago Venâncio!


Muito bem explicado, né?! Não preciso entrar em mais detalhes.
Vamos então ao próximo passo: encontrar o hostel. As ruas simplesmente não têm placa, não têm nome. Não tem como saber onde você está sem perguntar. É tão confuso que acho que nem GPS funciona lá. Rodamos um tempo na tentativa vã de encontrar o lugar, mas teve jeito não. A única alternativa era nos deixar levar pelos marroquinos que vendo nossa cara de gringo perdido, vinham perguntar se precisávamos de ajuda. Fomos seguindo um desses caras. Num ponto do trajeto eu já não fazia a mínima idéia de onde eu tava [se é que em algum momento eu soube]. Aí sempre tem um mais desesperado que eu, né?! "Gente, e se esse cara tá levando a gente pro lugar errado? Olha esse caminho que esquisito. Vão roubar a gente!". Mas eu num fiquei muito preocupada não. Roubar 14 pessoas de uma vezada deve ser um tanto quanto arriscado, né?!
Chegamos. Quando a gente entrou no lugar, minha boca abriu! E só foi fechar um tempo depois. Sabe o cenário do Clone? Pois é. Eu tava lá. Já tava esperando a Jade sair detrás de uma daquelas cortinas e escutando "Somente por amooooor..."
Tá aí uma fotinha pra vocês darem um confere.


Só sei que pairou aquela dúvida, né?! É o lugar certo? Mesmo que não fosse eu queria ficar ali. Aquilo desconstruiu completamente o meu conceito de hostel. Aquilo não era um hostel. Era um cenário de novela da Globo, gente!
Como vocês viram no vídeo, também fizemos um passeio no deserto. Passamos a noite lá. De longe a coisa mais doida que eu já fiz na vida. Pegamos um ônibus [Socorram-me subi num ônibus em Marrocos!]. Viajamos sei lá quantas horas. Subimos no alto das montanhas com pico coberto de gelo. Acompanhamos a mudança de paisagem de acordo com a altitude. Uns lugares mais lindos que só vendo. Foto nenhuma consegue expressar. Uma paz...






Saímos de manhã e chegamos no lugar de troca de meio de transporte no finalzinho da tarde. Disse troca de meio de transporte porque descemos do ônibus e pegamos camelos! Um pra cada um. Duas horas no lombo do camelo [que depois descobrimos não era camelo nada, era dromedário] depois chegamos no acampamento. Não sem antes pensar de novo: "Será que esses caras tão levando a gente pro lugar certo?". Imagina: um bando de gringo, montado em camelo [ok, dromedário], numa completa escuridão, no deserto do Saara, sem saber nem pra que lado tem que correr se acontecer alguma coisa? Mas já tava lá mesmo. Se morrer, amanhã faz dois dias.
Além do mais, o céu do deserto à noite é a coisa mais linda que eu já vi na vida! Pensa em muita estrela. Mas muita mesmo. Muitíssimas! Podia me levar pra qualquer lugar debaixo daquele céu que eu tava feliz.
No final deu tudo certo. Jantamos comida típica. A galera ficou de piriri. Normal. No dia seguinte acordamos bem cedo pra ver o sol nascer por detrás das dunas. Depois fizemos o trajeto de volta...
No final, fiquei com aquela sensação de querer conhecer coisas diferentes. Porque por mais que a Europa seja bonita, é tudo mais ou menos igual, até mesmo na Rússia. O padrão é mais ou menos o mesmo. No Marrocos não tem mão e contra mão, calçada ou qualquer regra de trânsito. As construções são TODAS num tom amarronzado, cor de lama e algumas de fato são feitas de lama. As mulheres andam com as cabeças cobertas. E quanto dá a hora de rezar, os auto-falantes começam a berrar e todo mundo corre pras mesquitas, tipo quando toca o sinal do recreio. Outro mundo.
Tô pensando seriamente em fazer a minha próxima parada na Índia. Alguém me acompanha?

[eu sei que os posts tão cada dia maiores e esse superou todos os limites. mas o Marrocos merece. e como diria o gordinho dono da bola: o blog é meu, eu escrevo o tanto que eu achar necessário. vou guardar minha objetividade pra quando estiver escrevendo notícias.
se você chegou até aqui, muito obrigada!]

E não pára por aí...

E vocês acham que os perrengues pararam por aí?
Ainda teve a volta.
Muitos sites, companhias aéreas, preços, cidades e tempo depois, concluí que a maneira mais barata de voltar seria pegar um vôo de Moscou pra Dusseldorf, na Alemanha, e de Dusseldorf pra Madrid. Só tinham dois pequenos detalhes que eu não me atentei na hora que eu comprei as passagens [ou que pelo menos naquela hora não eram um problema]: 1) meu vôo chegaria em Dusseldorf umas 18h, 18h30 e o vôo pra Madrid só sairia por volta das 13h do outro dia [ou seja, mais muitas horas intermináveis no aeroporto]. 2) o vôo pra Madrid sairia de um aeroporto diferente.
Só quando cheguei em Dusseldorf caiu minha ficha: "Putz! Vou ter que passar pelo menos 13h nesse aeroporto, sozinha - isso sem contar as outras 6h horas entre o trajeto pro outro aeroporto e esperando dar a hora do embarque". Mas naquela altura do campeonato já num tinha muito o que fazer. O jeito era esperar mesmo. E se tem uma coisa que essa viagem me ensinou, essa coisa foi esperar. Foram intensos exercícios e provas até eu alcançar o Nirvana da paciência. Um nível máximo de abstração que nada mais conseguia me fazer ficar nervosa ou ansiosa [pelo menos não como antes].
A sorte é que eu tinha levado os "apuntes" das matérias que eu ia ter prova na semana seguinte. Graças a Deus. Porque na completa falta do fazer não me restou nada além de estudar. E só assim mesmo pra eu estudar alguma coisa. Mas não sem antes dar uma voltinha no aeroporto. Conferir os preços do free shop e ver que realmente os preços dos supermercados de Salamanca são melhores. Ir no banheiro. Procurar saber como faz pra chegar no outro aeroporto. Ir no lugar onde pega o trem. Fazer um lanchinho... Depois disso tudo, achei que já tinham passado pelo menos umas três horas, né?! RÁ-RÁ! Chuta quanto tempo?
Pouco mais de uma hora. É. Tinha tudo pra ser a noite mais longa da minha vida. Estudei até enjoar [ou seja, por volta de uma hora e meia]. E ainda tinha toda uma noite pela frente.
O aeroporto foi ficando vazio. Poucas almas circulando. As luzes se apagando. Era só que faltava, né?! O aeroporto fechar e eu não poder ficar lá. Como eu ia arrumar um lugar pra ficar plena 10h da noite? Mas, como eu disse antes, nada que afetasse meu humor. Se tivesse que dormir na rua a gente dormia. Ainda mais na Alemanha. Tranquilo. O único problema seria o frio.
Mas não foi necessário. Dormi como um anjo. Acordei umas 5h da manhã e fui procurar horário de trem pra ir pro centro. Cheguei na estação central umas 7h da manhã, eu acho. Os alemães realmente acordam cedo [na Espanha, uma hora daquela, as únicas pessoas que você vê na rua são os lixeiros e bêbados voltando de baladas]. Mesmo assim o guichê de informação não tava aberto. E eu não conseguia encontrar o local pra pegar o ônibus pro outro aeroporto.Todas as placas em alemão, né?!
Fui pedir informação no guichê da companhia de trem. O moço disse que eu poderia pegar um trem pra cidade onde fica o outro aeroporto. Ok. Vamo lá então. Mas até eu me entender com a máquina que vende as passagens eu já tinha perdido o trem que o moço falou. Fui caçar nos murais o horário do próximo. Depois de muito esforço descobri que tinha um daí a meia hora. Fui pra plataforma e procurei alguém com cara que falava inglês só pra tirar a dúvida se era o trem certo. Era. Entrei. Sabia que seria por volta de uma hora de viagem. Só tinha um detalhe, no papel que o moço me deu só tinha o nome de umas três cidades no trajeto. Em menos de meia hora o trem já tinha parado nuns cinco lugares diferentes. Mas deixa pra lá, né?! Nenhum deles tinha o nome do lugar que eu tinha que descer, então vamo continuar...


Até que chegou em um lugar e a voz do além anunciou que quem quisesse ir pro aeroporto podia descer ali e pegar um ônibus. A cidade não era a mesma que eu deveria descer, mas como a voz disse, quem sou eu pra contrariar. Não pensei duas vezes e desci do trem. Depois que eu desci e o trem seguiu, pensei: "Acho que eu fiz uma grande cagada". Mas já tava feita, né?! Então vamo procurar o lugar que pega o tal do ônibus. Caminhei nos entornos da estação procurando um ponto de ônibus. Achei. Mas, lógico, os nomes das linhas estavam todos em alemão. E nada parecido com "aeroporto". Nenhuma pessoa na rua pra eu perguntar. E eu não sabia sequer o nome da cidade onde eu estava. Louco, né?! Perdida em algum lugar da Alemanha que eu nem sabia onde. Se acontecesse alguma coisa comigo ali, ninguém me encontrava!
Mas a sorte bateu na minha porta. Um senhor, vendo que eu tentava ler as linhas de ônibus, me gritou lá do outro lado da rua e perguntou se eu queria ir pro aeroporto. Em inglês! Eu disse que sim. Ele apontou pra uma praça e falou pra eu correr. Só deu a Tainá correndo pelas ruas de algum lugar da Alemanha. Consegui pegar o ônibus. E que felicidade foi ver o letreiro do aeroporto alguns minutos depois!

Em nome do amor

É amiguinhos, tem coisas que a gente faz na vida que a gente nem entende o porquê. Só sei que bate aquela vontade, a gente vai lá e faz. E não é de piriri que eu tô falando.
Bom, mas vamos fazer uma retrospectiva pra que vocês entendam melhor.

Tudo começou quando a donzela aqui resolveu chutar o balde, largar a mordomia da casa da mamãe, o um ano de faculdade ja concluído, o estágio que ela adorava, os amigos, enfim... Toda uma vida já "consolidada". E foi  pra onde? Foi tentar a vida em Juiz de Fora. Na Facom, mais especificamente. E desde o início ela tinha um objetivo: como estudaria em uma universidade federal, com convênios com universidades do mundo todo, ela queria ir mais longe que os quase 500 km que separam Juiz de Fora de Governador Valadares. Queria ir estudar na Zoropa.
Então ela correu atrás. Tanto fez que conseguiu. Mas eis que no meio dessa trajetória aparece um manolo-bruxão-pirata-Wolverine. Ela se apaixona por ele. E aí? Comofas? Seis meses longe do namorado. A maioria da galera desiste antes mesmo de começar. Afinal de contas, intercâmbio = zuação-pegação-festa loka-gringos bonitões doidos com brasileiras. De fato ela viu muito disso por essas bandas. Mas ela sabia o que queria e não desistiu.




O que acontece é que no meio do caminho o manolo-bruxão-pirata-Wolverine dá a seguinte notícia pra ela: tô indo pra Rússia. Vou ficar lá seis meses!
Ela ficou feliz com a notícia. É que era o sonho dele que estava prestes a se realizar. E ele trabalhou muito pra isso. Mas foi inevitável pensar: Porra-Caralho-Fudeu! Seis meses a gente aguenta. Agora um ano é complicado, né galera. Haja amor! Fala aí...
Adivinhem qual foi a primeira coisa que ela pensou? Não. Não foi: "vou terminar". Foi: "preciso ir pra Rússia!". Isso mesmo. Ela resolveu que iria pra Rússia. Simples, né?! Ali, na Rússia. Deu um jeito de juntar uma grana  pra comprar utensílios de frio. Arrumou vários (na verdade foram dois. mas é sempre bom exagerar um pouquinho) contatos na Rússia que poderiam ajudar nessa empreitada.
Chegando lá, ela não tinha a mínima noção do que a esperava. Só sabia que ela tinha que ver o namorado antes de ir embora da Europa. E tinham falado pra ela que todo mundo lá falava inglês. Que nas placas a informações estavam escritas no alfabeto russo e no nosso alfabeto.. Enfim. Mel na chupeta, né?!
É. De fato foi uma doce ilusão. Nem no aeroporto a galera falava inglês direito. Vocês tem noção? Aí ela tava ali, sozinha, porque o namorado só chegaria daí a dois dias. Ninguém entendia o que ela falava. E ela não conseguia ler nada, nem a passagem de trem  pra chegar no centro, pra saber qual a plataforma correta. Um completa analfabeta de pai e mãe. Foram várias tentativas de pedir informação. Pensou até em ficar no aeroporto até o dia do namorado chegar. Vai que ela pega o trem errado, desce num lugar desconhecido, sem poder se comunicar com ninguém, sozinha, num frio de menos sei lá quantos graus? Mas ficar no aeroporto sem banho não rolava. Resolveu arriscar. Entrou no trem que a galera tava entrando e seja o que Deus quiser!
Aí, uma voz do além anunciou a estação que o trem ia parar. Era a mesma que ela tinha olhado na internet. Ufa! Tava no trem certo. Então passou o caminho todo pensando: Puta que pariu! O que que eu vim fazer aqui? Como meu pai me deixou fazer essa insanidade? Olha esse frio (a essa altura do inverno ela já tava doida pra sentir calor, andar de chileno Havaiana na rua e com roupas que deixassem os joelhos a mostra. Aí ela escolheu o lugar perfeito pra ir, né?! A Rússia)!
Já tava a ponto de ligar pra mãe dela e pedir: "mãe, vem me buscar!". Mas já num tinha jeito. Como dito no post anterior: tá no inferno, abraça o capeta. O próximo desafio era o metrô. Quando ela chegou lá pensou: quem foi o infeliz que disse que nas placas tinha tudo escrito no alfabeto ocidental? Vou trazer ele aqui agora pra ele ver. E o mais legal era que a informação que ela tinha pegado na internet só tinha o nome da estação que ela deveria descer no nosso alfabeto. Mais uma vez: Fudeu! Mas ela não desistiu. Uma vesão russa pro Joseph Klinber! Encontrou um mapa que tinha os nomes em ambos alfabetos. Aí anotou o nome em russo. "Uma coisa parecida com um B. Um R de trás pra frente. Um quadrado sem a parte de baixo..." E assim foi. Na hora de pegar o trem, tinha que conferir letra por letra. E não era igual o metrô de Barcelona, que a mulherzinha anunciava o nome da estação e acendia uma luzinha indicando. Era se vira nos 30. Tinha que rebolar pra conseguir enxergar na parede qual estação que tava parando.
A hora que ela chegou no hostel, falou com a recepcionista e a menina entendeu e respondeu! Foi uma das maiores alegrias da vida dela. Aí pensou: "Caralho! Sou foda. Consegui. Agora pode me soltar até na China que eu chego onde eu tenho que chegar".
Mas não pára por aí. No dia do namorado chegar ela foi pro aeroporto. Chegou lá cedo e ficou esperando. Viu no painel que o vôo ia atrasar. Normal. Esperou mais um pouco. Deu a hora. Foi pro portão de desembarque. Tava com câmera preparada pra tirar foto, cartazinho com declaração de amor (tá. eu sei que é brega!)... E cadê o menino? Passou meia hora. Uma hora. Uma hora e meia. O vôo saiu do painel e nada. Aí sim ela pensou: Fudeu de verdade. E agora? Será que ele ficou preso na imigração? Será que deu problema na bagagem? Será que ele perdeu o vôo? Será que era uma pegadinha ele não vinha pra Rússia nada? Cadê a câmera?
Quase duas horas depois que o vôo tinha pousado, ela tomou uma decisão drástica: "vou chamar a polícia!" Mas o primeiro policial que ela abordou, pra variar, não falava inglês. Tentou outro. Esse sim! Ela explicou a situação e ele ajudou. Levou ela lá no "baggage claim"! Não sem antes pedir o passaporte e falar: "Brasil! Samba! Rio de Janeiro"!
Ela olhou pra um lado, olhou pro outro e nada do bofe (nisso o policial tava segurando a plaquinha com a declaração de amor!).
Eis que de repente ela olha pra frente e quem ela vê? O manolo-bruxão-pirata-Wolverine!
Ufa! Deus é bom! Ele veio.
Aí foi só partir pro abraço. E pro beijo!


A aventura pra chegar à Rússia

Depois de umas "férias" no Marrocos, voltamos com os capítulos da viagem...

Já tinha toda a programação da viagem pronta. Mas no meio do caminho os planos mudaram. Ao invés de voltar pra Espanha no dia 14 com a Veronika, a louca aqui resolveu dar um pulinho ali na Rússia. Depois de procurar todos os meios de transporte pra sair da República Tcheca e ir parar no extremo leste da Europa, descobri que não tinha jeito. Ir direto da Rep. Tcheca pra lá seria uma fortuna. Teria que caçar um roteiro alternativo.
Como contado em um post anterior me perdi em nomes de cidades, conheci todas as companhias aéreas do mundo e cheguei a conclusão de que teria que pergar um trem pra Berlin e de la um vôo pra Moscow.
Falei com a Veronika a respeito e ela disse que não precisava comprar passagem de trem com antecedência, porque os preços não variam. Então comprei só o bilhete de avião e nem me preocupei com isso mais. Cheguei na Rep. Tcheca e era tanto lugar pra conhecer, tanta gente, várias pequenas viagens, que eu nem lembrei de comprar esse bendito desse bilhete de trem.
Um dia antes, quando a gente estava em Brno, surgiu o assunto da minha viagem. Todos os amigos da Veronika disseram que ir de trem pra Berlin era MUITO caro. Que era melhor ir de ônibus. Estranhei, porque na internet o preço da passagem tava 30 euros. Eu tinha certeza disso. Na volta pra Vysoké Mýto perguntamos na estação o preço da passagem. Realmente era uma pequena fortuna. Fudeu, né?!
Chegamos em casa e fui olhar o tal do ônibus. Saía de Praga às 7h30 da manha. Pra chegar lá a tempo, eu teria que pegar um onibus tipo 3h45 da manhã. Que beleza!
E nesse meio tempo, eu ainda recebo um e-mail me comunicando que o motivo da minha viagem pra Rússia não estaria lá na data planejada. Só chegaria dois dias depois. 
E agora? Como diriam os espanhois: JO-DER!
Bom, mas as passagens de ida e de volta pra Rússia já estavam compradas. Pra mudar seria mais uma pequena fortuna. E se eu não fosse ainda tinha que arrumar um jeito de voltar pra Espanha de lá da Rep. Tcheca. O que fazer? Já que tá no inferno, abraça o capeta, né?! Vão bora pra Rússia e seja o que Deus quiser. Na pior da hipóteses, ia ser mais lugar que eu conheci.
Mas aí tinha que resolver ainda se eu pagava uma fortuna no trem, ou saía de madrugada pra pegar o ônibus. Optei pelo trem. Mas não tinha como comprar pela internet. Ia arriscar chegar na estação e comprar na hora. E se não tivesse passagem, já era. Porque não ia dar pra pegar o ônibus mais. Segura na mão de Deus, meu amigo.
No outro dia de manhã fomos conferir o horário do trem. Descobri que eu teria que trocar de trem duas vezes e que em uma dessas trocas eu teria 4 minutos pra sair do meu trem, ir no saguão da estação, procurar a plataforma do outro trem, achar a plataforma e embarcar. Na outra troca, que seria em Praga, eu teria 10 minutos pra sair do trem, ir no saguão, achar o guichê da companhia, comprar outra passagem (rezando pra não ter fila) e voltar pro trem. Isso porque eu não tinha dinheiro o suficiente pra comprar todas as passagens, e segundo a Veronika, a estação que eu pegaria o primeiro trem não aceitava cartão. Só em Praga que seria possível comprar a passagem. Detalhe: tudo isso em tcheco!
Momento de pânico.


Preferi não sofrer por antecipação. Se as coisas dessem certo era porque tinha que dar mesmo. Porque o índice VDM (Vai Dar Merda) tava alcançando níveis imensuráveis. Nem a Veronika tava acreditando que eu ia conseguir chegar em Berin. 
Chegamos na estação e tivemos uma grata surpresa. Tinha um trem mais cedo. Ao invés de 4, eu teria 17 minutos pra achar o outro trem. E o melhor! Lá aceitava cartão sim. Eu não ia precisar sair do trem pra comprar outra passagem. Aí ficou fácil!
Quando pensei nisso, me esqueci que estaria tudo em tcheco na estação que eu teria que trocar de trem. Desci na estação certa. Mas quem disse que eu achava a plataforma do outro trem? Impossível. Não consegui identificar no painel. Perguntei pra um monte de gente. Mas ou eles não falavam inglês ou não sabiam informar. Até que eu cheguei no maquinista de um trem que ia pra Praga. Já tinha falado com ele antes. Mas meu desespero era tão grande que eu resolvi tentar de novo. Se eu perdesse aquele trem, adeus Rússia...
Falei com o moço. Ele não conseguia me responder em inglês. Só apontava pro outro lado. Até que uma boa alma que tava por perto, ao ver nossa dificuldade de comunicação e todo o meu desespero, se aproximou e perguntou o que tava acontecendo (em inglês!). Aí eu mostrei o meu bilhete e ele disse que tava esperando o mesmo trem. Que eu podia esperar com ele. ALELUIA! Deus é bom.
Consegui chegar em Berlim! Da estação pro aeroporto foi um pulo.


Parlamento alemão

Próximo capítulo: Você já fez uma loucura por amor?









Bota a tcheca pra sambar!

Enfim, República Tcheca!

Posso falar? O lugar mais foda que eu conheci. E nem é pela "buniteza" não.
Não. Também não tô falando que o país é feio. De fato é bem bonito. Mas o que mais me encantou foram as pessoas. Todos me receberam tão bem, mas tão bem, que eu nem sei explicar. Antes mesmo de eu chegar, a Verônica [minha amiga tcheca que me levou pra conhecer o país] já tava me avisando que tava todo mundo doido pra me conhecer. "A brazilian girl!". Brasileira tem fama, né?! Eles deviam estar imaginando uma mulata, popozuda, passista de escola de samba, semi-nua. Aí chega eu lá. Baixinha, branquela, toda encapotada, morrendo de frio. Bom, mas nem por isso eles deixaram de me dar atenção. Muito pelo contrário. O carisma brasileiro ultrapassa os estereótipos.
Logo na primeira vez que a gente saiu lá as pessoas já vieram puxar papo, pagaram comida e bebida pra mim, me deram souvenirs... E não acreditavam que eu era brasileira. Não porque eu não pareça brasileira, mas porque acho que pra eles uma pessoa do Brasil é uma coisa tão distante que ver uma assim de perto é quase uma emoção!


Eu e Veronika em Praha

E foi assim durante toda a semana que eu passei lá. Eu me sentia uma jaguatirica no zoologico. A Monalisa no Louvre. Todo mundo queria me ver, me conhecer. E as pessoas eram tão simpáticas. Se esforçavam pra conversar comigo, porque eu não falo tcheco. Na minha lista de opções tinha inglês, espanhol e português. O português pode descartar. Espanhol eu encontrei umas duas pessoas que falavam. A comunicação era feita mesmo em inglês. Mas nem todos falavam muito bem, então tinham que se esforçar. Como eles têm um acento bem marcado, no começo eu tive um pouco de dificuldade pra entender. Mas com dois dias eu já tava até apresentando um sotaque parecido com o deles.
Muitas vezes a Verônika teve que servir de intérprete pra mim. Mas no final eu já tava espertinha. Ficava prestando atenção e era capaz até de falar qual era o assunto da conversa. E eles ficavam abismados. Porque o tcheco é muito diferente. Parece até que não é de Deus. Tanto é que a sonoridade é quase a mesma coisa de escutar um disco da Xuxa ao contrário. Sério. Parece que eles tão falando de trás pra frente. E a escrita? Tem acento em tudo quanto é letra!
De todos os países que eu visitei [tirando a Espanha, lógico], foi o único que eu deixei um pouco de lado o espírito de gincana turística [você tem um mapa, quatro dias e 50 lugares para visitar... TEMPO!] e vivi como o povo daquele país. Acho que eu comi todas as comida típicas. Que por sinal são muito boas! Não imaginei que fosse gostar tanto. E experimentei a cerveja tcheca, claro! Êta povo que bebe. Bebe e fuma. Fuma mais que bebe. Todo mundo fuma! Incrível. Tem lugar que é impossível ficar. Por causa do frio, fica tudo fechado e aquela nuvem de fumaça. Devo ter fumado passivamente todos os cigarros que eu não fumei na vida. Era o único inconveniente.
E pra terminar, lógico que eu tive que mostrar o vídeo do É o Tchan!

Je suis dans la piscine


Voltando à viagem...

Paris! Inacreditável. Quando na minha vida eu ia imaginar que eu iria pra Paris, gente? E com a Mariana Pena ainda por cima! Vai vendo aí. Tudo é possível [e isso é só começo. o grosso do inimaginável ainda está por vir].
Tudo bem que a gente chegou lá de ônibus, nada glamour. Mas o importante é chegar, né não?! E não sei se já falei aqui, mas ônibus europeu é outra coisa. E estrada européia é outra coisa também. Parece que você tá deslizando no asfalto. Pra quem tá acostumada com a Rio Doce, eixo Juiz de Fora/Governador Valadares, pegar uma Eurolines, eixo Bruxelas/Paris, é puro luxo e glamour, meo bein!
Já em Paris, era hora de descobrir onde fica o hostel. Sabíamos a estação de metrô que tínhamos que descer, então foi tranquilo. E o sistema de metrô de Paris é bem sinalizado e fácil de andar [nada parecido com o de Bruxelas]. O problema foi a hora que a gente saiu do metrô. A estação tinha o mesmo nome da rua do hostel, então a gente achou que ia ser mega fácil. Só procurar o número. Mas cadê o número? Num tinha. Fudeu! Três donzelas, soltas pelas ruas de Paris, num domingo, 23h, cheias de malas, mochila e sacolas com chocolate e cerveja belga. E sem hostel. Pronto. O hostel não existe, pensei. Mas num era possível. Um amigo nosso que tinha ido a Paris ficou nesse hostel. "A gente tá é no lugar errado". Mas e quem disse que tinha placa com o nome da porcaria da rua. "Vamo perguntar então". Mas domingo, 11h da noite, vamo combinar que nem em Paris tem gente na rua, né?! Achamos uma padaria aberta. Outro problema: todo mundo fala que na França num rola de falar inglês, né?! Mais uma vez tive que lançar mão do meu Francês Instrumental I e II. Depois do "je suis dans la piscine" rondar a minha mente, consegui formular uma frase. Saiu algo parecido com "coman je... fet pour arriver a... la rue du...crimé?". Enquanto eu falava, nego me olhava com uma cara de "desprezo francês". Mas foram simpáticos comigo e me explicaram como fazia pra chegar na rua. E eu entendi! Chegamos no hostel. Daí em diante foi só Notre Dame, Bastilha, Louvre, Torre Eifel, Sacre Coueur, Moulin Rouge, Mon Martre, Arco do Triunfo, Champs Elisee, Gran Palais, Petit Palais, Rio Sena, Ópera, Galerie La Fayete...
LINDO, LINDO LINDO! Foi o oposto de Amsterdam. Porque Paris é aquela coisa, né?! Torre Eifel, Arco do Triunfo... Tudo muito famoso. A gente tá cansado de ver a Torre Eifel. Nem criei muitas expectativas. Mas quando eu cheguei lá... Ai, gente! Que vontade de ficar lá pra sempre. Porque quatro dias é muito pouco.
Quanto ao francês, bom, com um mapa na mão e um bom senso de direção, é impossível se perder em Paris. Então a gente quase nem pediu informação na rua. Nos bares, cafés e restaurantes eu bem que tentava arriscar um francês. Mas nem era necessário. É que como tem MUITO turista [muito mesmo!], o pessoal fala inglês. Acho que tem mais turista que francês, inclusive. E brasileiro, então?! É andar 10 minutos na rua pra passar por alguém falando português [do Brasil!]. Nós estamos por toda parte. E o mais engraçado: lá tem muito comerciante de rua, camelô, artista... E eles conseguem reconhecer a nacionalidade das pessoas. Sempre que a gente passava eles falavam: ô brasileira, num quer uma Torre Eifel não? [em inglês, lógico]. E a gente encucada com aquilo.. Como esse cara sabe que a gente é brasileira, Jesus? Ainda mais eu, que sou quase uma européia. Vivo aqui há cinco meses [hauahauha aham, Cláudia!]. Um belo dia, estávamos no Mon Martre, e um artista ofereceu pra fazer um desenho da gente. E chamou a gente de brasileira. "Pô! Num é possível!". Aí eu num aguentei, tive que perguntar como ele sabia que a gente era do Brasil. E ele disse "Tá sorrindo e com frio, é brasileiro!".

Je suis dans la piscine


Dicas:

- quando for à Torre Eifel, se algum africano [naquela região tem muito africano vendendo buginganga] vier pro seu lado segurando umas linhas e te parar falando que vai fazer Hakuna Matata em você, corre que é fria! Mas não precisa correr literalmente. Só manda um "no, thanks!" e tá beleza. O mesmo com as criancinhas que chegam te pedindo pra assinar um papel pra ajudar a ONU, ou sei lá que instituição que é... Eles vão te pedir dinheiro em troca. E você tem que dar [eles enchem tanto o saco que você acaba dando]. E se você der pouco, eles pedem mais!
- não vá ao pub crawl [um tour pelos bares de Mon Martre]. É
roubada também. Você paga 12 euros pelo passeio. Mas é só pelo passeio. Você num ganha nem um chupitinho... Tem que pagar pela bebida nos bares.

- Confira se o museu que você vai está funcionando. A gente foi num monte de lugar que tava em reforma ou não abria no dia que a gente foi. O Louvre, por exemplo, não abre na terça-feira. A gente não sabia disso. Fomos lá e perdemos a viagem...

- Se for fazer o passeio de barco no Rio Sena, tente
verificar se no seu barco não vai ter uma caravana de 200 japoneses. Eles se levantam TODOS, ficam tirando foto de tudo e você não consegue ver nada...


Próxima parada: República Tcheca!


Los examenes!

Enfim, estudei um tanto que eu achei que fosse suficiente pra um exame. O primeiro e mais complicado [pelo menos pra mim] deles, de uma disciplina chamada Sistemas Políticos de Europa. Carinhosamente apelidada de Sistemas! Não sei de onde eu tirei fazer essa matéria. Eu acho política muito interessante. Ponto. Nunca tinha estudado nada específico. No início do semestre fiquei meio perdida. Eram muitos conceitos básicos que eu não tinha idéia do que era. "Distrito uninominal", "fórmula proporcional", "bicameralismo assimétrico", "clivagem", "sistema de partidos". E eu lá no meio daquele monte de gente que estuda Ciência Política. Pensei: vou estudar muito essa matéria pra quando chegar na época dos exames eu estar no mesmo nível dos coleguinhas. 
Mas, como vocês viram, eu não estudei. Acabei aprendendo na marra mesmo, de tanto ouvir falar. 
Chegou o dia que parecia que tããããão distante quando começaram as aulas: o dia da prova. Na sala, os coleguinhas citavam os nomes de todos os partidos da Itália. E eu lá "Hã? Tinha que saber isso?". Não tem a mínima condição de saber. A Itália tem 93284578 partidos. E o povo aqui decora mesmo. Data, nome... Tudo o que eu não faço. Pensei: "Fudeu! Num é possível que o professor vai mandar escrever os partidos da Itália na prova, né?! Tanta coisa mais interessante pra perguntar, pô!".
Começou a distribuição das provas. A galera que recebeu primeiro foi rápida no gatilho, leu as perguntas rapidinho e já saiu perguntando pros coleguinhas a resposta. Estudante é estudante em qualquer lugar do mundo. E a minha sala tinha uma grande vantagem: a matéria da prova eram os sistemas políticos de Alemanha, Itália, Inglaterra e França, e nós tínhamos a nossa disposição vááááários nativos de cada país [menos da Grã Bretanha. mas a Grã Bretanha era o mais fácil]. A gente podia escolher pra quem perguntar. 
Numa dessas, uma alemã que tava atrás de mim salvou parte de uma das minhas questões [e da de mais umas quatro pessoas]. Uma das indagações da pergunta era qual o nome do partido que governa a Alemanha atualmente. Eu, lógico, não fazia a mínima idéia. Só sabia que tinha um partido que a sigla é FDP! 
Graças à coleguinha, hoje eu sei que é o CDU [só não me pergunte o que significa].
Equanto isso, o pessoal ainda tava recebendo as folhas. E que folhas! Cara, eles te dão um A3 branco pra fazer a prova! Tipo um cartaz. A hora que eu vi aquilo quase que eu achei que tava no lugar errado. "Não moço! Num é prova de desenho não.". E fiquei naquela "que que é pra fazer com essa folha, Jesus?".
Aí, claro, olhei pro lado, pra ver o que os coleguinhas estavam fazendo. Todo mundo dobrou a folha no meio e começou a escrever. E eu segui o fluxo, né?! Eram 6 questões. Escrevi cinco páginas! Acho que nunca escrevi tanto numa prova. E em espanhol! 
O exame do dia seguinte foi bem parecido. Também me deram um A3, também eram 6 questões discursivas.   O problema é que eu inventei de sair na noite anterior. Acordei com aquele sono! E a prova era 11h da manhã. Mas eu resolvi dar uma lida na matéria antes, já que eu tinha lido só uma vez, no aeroporto! Com isso me atrasei e eu PRECISAVA tomar um café antes de sair. O que eu fiz? Fiz o café, coloquei numa caneca e fui pra faculdade com a caneca na mão! Quando eu abri a porta da sala, já estavam todos em seus lugares e, lógico, todo mundo olhou pra mim. Eu tava crente que ia chegar na sala, ia tá aquela bagunça e ninguém ia nem notar a minha canequinha... Bom, mas professor não falou nada. Então eu fiz a prova tomando meu café, numa boa. E apesar de não ter estudado muito, acho que deu pra passar! Graças ao café!

Estudiar Estudiar Estudiar

Uma breve pausa na nossa viagem, e um pequeno avanço no tempo, pra falar de um tema importante.

Tudo estava nos conformes na vida salamantina quando eu comecei minha viagem. Mas quando eu cheguei em Salamanca, depois quase um mês, as coisas tinham mudado. E muito!
A biblioteca tava bombando mais que o Irish [Pub] em terça-feira [dia de "barra libre"- você paga 5 euros e bebe sangria e Heinneken à vontade até 2h30 da manhã!]. Até o horário estava alterado. Tinha biblioteca aberta 24h, vocês têm noção? A balada da moda era no meio dos livros, em silêncio. Neguinho tava pirando o cabeção. Teve gente ficando doente, com crise stress. Gente virando noite estudando. E eu sem entender o porquê do desespero. "Relaxa, gente, é só uma prova!"
Aí começaram a chegar as notícias. "Nossa! Que prova foi aquela? 60 questões tipo teste. Se eu errasse três, anulava uma certa. E mais cinco questões abertas. E só 1h pra fazer".
Comecei a ficar assustada. Jesus tem poder! Mas meus professores me asseguraram que ambas as provas que eu teria que fazer seriam compostas por seis questões abertas. Na pior das hipóteses eu mandaria um enrolation versão portunhol e conseguiria alguns pontinhos.
Mas tava preocupante mesmo. Nego que "salia de fiesta" todos os dias tava passando 8h por dia estudando. E eu, com minha workaholisse - dois estágios, um trabalho voluntário, aula de espanhol, etc etc - não tava com esse tempo todo pra estudar. E o tempo que eu tinha, quem disse que eu estudava?
É que eu tenho duas descapacidades: ficar sozinha e estudar. Não sei estudar. Não consigo ficar hooooras sentada na cadeira, entende? Foi assim a vida toda. A minha sorte é que Deus é muito bom comigo e eu nunca tomei nenhum pau na vida. Sequer recuperação [mas sempre tem a primeira vez!].
Quando eu cheguei em Salamanca, há cinco meses, até tentei reverter essa situação. No começo eu ia todos os dias pra biblioteca e passava duas horas estudando. Nem eu acreditava no que eu tava fazendo! Mas isso durou menos de duas semanas... Passado esse tempo, sempre aparecia uma coisa melhor/mais importante pra fazer. Como diria o poeta Cumpadi Woshito: "pau que nasce torto..."



Bom, mas voltando à atualidade, eu fiz o possível! Mesmo que o possível pra mim seja estudar com o Facebook, o MSN, o Twitter, o Gmail e o Skype abertos. Com pausas regulares pra conversar com a Mylena, dar um passeio na cozinha e pensar na vida. Foi assim por duas tardes e uma noite. Mas tem um bônus: ainda durante a viagem, nas longas estadas em aeroportos, eu aproveitava pra ler um pouco da matéria [lembrando que ler é diferente de entender]. Parece suficiente, né?! Pelo menos pra mim, eu já tinha estudado até demais. Mas é que vocês não viram o tamanho do conteúdo.... Juro que eu me sentia mal em relação aos meus coleguinhas. Meu sonho era conseguir passar horas concentrada, estudando.
Nego aqui estuda pra morrer mesmo. Porque pra maioria das pessoas, a vida acadêmica delas depende desses exames. Tem professor que só dá UMA avaliação no semestre inteiro. Então, se você se fuder na prova, fudeu de verdade. Não tem outra chance. Tem que fazer a matéria de novo. Bizarro. Um sistema de avaliação um tanto quanto falho, vamo combinar. E pra quem vem da nossa querida Facom, e não sabe o que é uma prova já tem uns 2 anos, é complicado.
Mas como eu nunca fui muito de me preocupar com prova mesmo, coloquei minha cara de pau em ação e, como sempre, fui fazer as provas com a intenção de "testar meus conhecimentos" [um nome bonito pra "fazer prova sem estudar"]!

Próximo capítulo: Los examenes!

ps.: É, pai! Eu sou uma fraude. Nunca estudei.
[meu pai lê meu blog!]

Bruxelas?

O que você sabe sobre Bruxelas?
a) Bruxelas?!
b) É um tipo de couve
c) É nome da bruxa de um conto de fadas
d) É a capital da Bélgica

Bom, antes de ir pra lá eu confesso que não sabia muito também não...
Resolvemos ir pra Bruxelas porque o plano inicial era ir pra Paris depois do Reveillon, que seria na Holanda. Mas a Mari, minha amiga brasileira que fez parte da viagem comigo, queria conhecer outros países. Então sugeri a Belgica, que tá no meio do caminho, entre Holanda e França. Não é o país mais famoso da Europa, mas como a gente ia ter que passar por lá mesmo, aproveitava e dava uma parada por ali pra conhecer.
Resultado: saímos de Den Haag de manhã. A intenção era pegar o trem das 9h. Mas o trem tinha sido cancelado, sei lá por que... Ficamos uma hora na estação esperando o próximo trem. Chegando na estação de Bruxelas, hora de caçar um locker pra deixar as malas/mochila. Depois de quinze minutos pra descobrir como o negócio funcionava, vimos que precisava de moedinhas pra colocar na máquina. Mas ninguém tinha o suficiente. Vai a Tainá trocar dinheiro. Fui na primeira coisa aberta que tinha na estação. E na hora de pedir pro moço? Qual idioma usar? Recorri ao meu francês instrumental I e II, mas a única frase que eu conseguia lembrar era "Je suis dans la piscine". Mandei um inglês mesmo e funcionou.
Mapa na mão, hora de cair na rua. Primeira parada, catedral. De lá, saímos perguntando na rua onde ficava o Palácio Real. O Palácio é lindo. Enooorme. Bem diferente do da Holanda. Fizemos gracinha e até subimos no muro pra tirar foto. Num tinha guardinha nem nada na porta...
Quase do lado do Palácio tinha um Museu do Cinema. Muito maneiro! Mariana ficou louca lá. Depois fomos atrás do "menino fazendo xixi". É uma estátua muito famosa e que todo mundo falava que a gente tinha que ir ver. Mas a tal da estátua é quase uma Monalisa. Agente chega esperando um negócio e quando vê, o menino é quase uma miniatura. E é tanto turista na frente que quase não dá pra enxergar.

Onde está o "menino fazendo xixi"?



 Como a gente tava perto, fomos pro square/plaza mayor/praça central, ou o nome que você quiser dar. LIN-DO! Só vendo pra entender.

A essa altura nosso tempo já tava curto e ainda tinha a basílica, os prédios da União Européia e o Átomo pra visitar. E pra todos os lugares tinha que pegar metrô pra chegar. Resolvemos não ir em lugar nenhum e procurar um supermercado pra comprar chocolates e cervejas belgas, as especialidades da casa. Rodamos, rodamos, rodamos... Pedimos informação, em inglês, claro. Aí o negócio já ficou meio ruim. Uns inglês com sotaque mega carregado, que na metade da frase eu não sabia se era inglês mesmo ou se era francês. E o melhor de tudo: parei um moço e pedi informação ele começou a responder em francês! Achei que só na França tinha dessas coisas. Mas eu pensei, meu francês instrumental I e II não serve muito pra falar, mas acho que dá pra entender. Quem disse? Só entendi os "droit" e os "gauche". Depois de quase perder as esperanças, achamos um supermercado. Aí deu a louca, né?! Saímos limpando as prateleiras. Parecia que nunca tinha visto chocolate nem cerveja na vida. E na hora de ir embora, pra carregar aquela sacolaiada, faltando 30 minutos pro ônibus pra Paris sair? Na hora de comprar a gente não pensou que ia ficar pesado. E a gente ainda tinha que pegar as malas na estação e descobrir como fazia pra chegar na rodoviária.
Três loucas correndo por Bruxelas. Pegamos a as malas e fomos pro metrô. E pra entender o metrô de Bruxelas? Até o da Rússia eu entendi mais fácil. Não dava pra perder tempo. Faltavam 15 minutos pro ônibus sair. Saímos atrás de um táxi. Não tinha nenhum táxi na porta da estação. Seguimos as placas até achar um ponto. Aí o moço foi ótimo. Perguntou pra onde a gente ia, qual era a empresa e deixou a gente do lado do ônibus. Parece que os terminais são separados por empresa. Nossa sorte! Chegando na porta do ônibus, o moço não deixou a gente entrar. Falou que não podia e mostrou um cartãozinho. Mas eu não tinha cartãozinho. Tinha só a passagem que eu imprimi da internet. Mostrei pra ele e nada do moço deixar a gente entrar. Só ficava apontando pro outro lado. Mas do outro lado não tinha ônibus! E eu falava "Paris?" e ele balançava a cabeça que sim. Mostrava todos os ônibus que tinha atrás e apontava pro outro lado, onde não tinha ônibus. Até entender que tinha que fazer check in, foi um custo. Saímos correndo pro "outro lado" e deixamos a Cacau vigiando o ônibus pra não deixar ele sair.O moço deu pra gente um papel como número nosso ônibus. É que tinha um monte de ônibus indo pra Paris também e a gente tinha que passar no guichê antes pra saber qual era o nosso. Até entender isso, quase que a gente fica pra trás.
Entramos no ônibus. Ufa! Conseguimos. Vamos pra Paris!

Detalhe: muita gente me perguntou "o que você vai fazer em Bruxelas? Num tem nada lá". Mas eu gostei muito mais de lá que de muita cidade mais famosa. Recomendo!

Primeira parada: Holanda

Primeiro destino da aventura: Holanda, Netherlands, Países Baixos, ou o nome que você quiser dar. Um sonho, né?! Ir pra Holanda. Amsterdam! A gente ouve tanto falar... E teve aquela novela da Nanda e da menininha que repetia toda hora "moça bonita", que uma parte foi na Holanda e era tudo tão lindo. Andar de bicicleta. Ver aquelas tulipas coloridas. Os moinhos. Aquelas meninas loirinhas, de trancinha, com aquelas roupas típicas e sapato de madeira...
Mas a quebra de expectativa começou logo quando o avião tava pousando. Me bateu um desespero! Não. Não teve nenhum problema na aterrisagem. O desespero foi de olhar pela janela e ver TUDO branco [com umas árvores pretas, sem folha -lógico- só pra não ficar muito monótono].
Ok. Eu sabia que era inverno. Já tinha visto neve até aqui na Espanha. E teve todo aquele problema com a neve e os atrasos de vôo e caos nos aeroportos...
Mas sabe quando você não tá esperando? Quando você não ligou o nome à pessoa? Por mais que eu soubesse que teria muita neve, a imagem da Holanda que eu tinha na minha cabeça ainda eram aquelas cenas lindas da novela, as tulipas coloridas, os moinhos... Deu vontade de chorar! Sério. Num queria nem sair do avião. Mas já tava lá, né?!
Amsterdam é uma cidade com muitas atrações. Muitas mesmo. Desde a Casa da Anne Frank e o museu do Van Gogh [mas tem também museu do sexo, da maconha...], ao Red Light District e todas aquelas garotas se exibindo nas vitrines. Muitos contrastes. Mas, mais do que qualquer coisa, o que mais tem naquela cidade é turista. Nem em Paris eu acho que tinha tanto. A vantagem é que todo mundo fala inglês em todos os lugares. Facilita muito a nossa vida.
O centro é um pequeno-grande-caos. Muita gente, bicicleta, trem, carro. Tudo misturado. Tinha hora que eu achava que tava na Índia. Pra completar o cenário só faltavam os elefantes no trânsito.
Confesso que foi uma pequena decepção. Acho que se eu tivesse ido no verão, ou na primavera [ah! as tulipas...], sem toda aquela neve, que àquela altura já estava suja, derretendo e virando lama, eu teria gostado muito mais. Não que eu tenha desgostado. Mas é que não atendeu às expectativas de uma Amsterdam colorida e com sol que eu tinha na minha cabeça.

Palamento holandês em Den Haag

Quanto ao país em geral, fui muito bem recebida, principalmente pela Bryley [a australiana/holandesa/inglesa que me hospedou] e toda a sua família, que moram em Den Haag, a cidade da rainha. Vale a pena conhecer. E fica bem pertinho de Amsterdam. Dependendo da época do ano que você for, pode presenciar um verdadeiro conto de fadas, com direito a carruagem dourada e realeza desfilando pelas ruas. Outra cidade que visitamos foi Utrecht. Uma Amsterdam em miniatura, sem tantos turistas e tantos caos. Mas com todo o charme da capital. Confesso que gostei mais.
Ah! E se for à Holanda, não deixe de experimentar a "batata no cone". Especialidade da casa. Muito bom!
Por fim, um agradecimento especial à Mariana Pena, Cacau Pena, Mascha Alexandrova e Bryley Jackson, que foram minhas companheiras de aventura!

Tudo cabe dentro de uma mochila

Sim. Eu sumi. Mas num foi só daqui não. Eu sumi no mundo mesmo. Foram 20 dias ininterruptos viajando. Se contar o Natal em Portugal, dá quase um mês. E nesse tempo todo, tudo o que eu precisava coube dentro de uma mochila de 40 litros. E olha que era inverno e roupas de inverno ocupam muito espaço.
Uma grande e prática lição de desapego às coisas materiais. Você só leva o que realmente vai precisar. E só compra o que é realmente necessário ou o que você realmente quer.
Se eu pude sobreviver 20 dias só com as coisas que estavam dentro da minha mochila, por que não seria possível viver um mês? Um ano? Ou até o resto da vida? Lógico que a minha bota, por exemplo, voltou arregaçada e meu casaco branco nunca mais vai ser branco. Mas isso a gente pode ir substituindo no caminho. Eu não preciso de 20 casacos e 30 pares de sapato. Um de cada já resolve o meu problema. Tudo bem que eu tô com praticamente a mesma roupa em todas as fotos. Mas e daí? O importante são os lugares que eu fui, as histórias pra contar, as experiências e as coisas que eu aprendi. Comparado a isso, a roupa que eu estava usando não é nada.
Antes de ir eu estava com muito medo. Medo de alguma coisa dar errado, de eu ficar morrendo de vontade de voltar pra casa... O índice VDM [Vai Dar Merda] era muito grande. Eram muitos aeroportos, trens, cidades e pessoas diferentes. Lógico que alguma coisa ia dar errado. E de fato nem tudo saiu exatamente como planejado. Mas deu tudo certo. No fim das contas conseguir ir a todos os lugares planejados. E era tanta novidade, tantos lugares incríveis e pessoas legais, que não fiquei com vontade de voltar pra casa [de Salamanca. Não a minha casa de verdade, no Brasil]. E o mais importante, minha saúde permaneceu em perfeito estado, mesmo com a alimentação por vezes inadequada e dias inteiros andando no frio, na neve ou na chuva.
Foram 7 países [sei lá quantas cidades...], 8 aeroportos, 10 estações de trem e 4 rodoviárias. Isso sem contar as inúmeras viagens de metrô e ônibus urbano e os muitos quilômetros andados à pé, com ou sem a mochila nas costas. Lugares incríveis. Línguas ininteligíveis. Perrengues. Aventuras e histórias pra contar.
Voltei com a sensação de que pode me soltar em qualquer lugar do mundo que eu me viro. Descobri que eu sou mais esperta do que eu pensava. Que o mundo nem é tão grande assim. E que eu poderia passar o resto da minha vida viajando. Eu e minha mochila.


Trem de Chocen [Rep. Tcheca] pra Berlin

Em breve volto com alguns causossos e impressões.

Você já ouviu falar de Warszawa e Wien


Pra vocês verem como são as coisas... Há algum tempo venho travando uma batalha a procura de passagens baratas para viajar pela Europa. Inclusive já fiz um post sobre o assunto. E durante a busca eu esbarrei em alguns problemas. Um deles, talvez o mais improvável e inusitado, foi o nome das cidades e dos países. Quando eu clicava na listinha de destinos apareciam tantos lugares que NUNCA tinha ouvido falar na vida [e que tinham aeroporto internacional], que eu me sentia muito ignorante. Mas eram muitos mesmo.

Segue o meu raciocínio: você está procurando passagens e vê na lista de destinos as seguintes cidades: Warszawa e Wien. Além de um país chamado Osterreich e outro chamado Magyarország. Aí você pensa: "devia ter estudado mais geografia! Nunca ouvi falar desses lugares". Mas como você está muito ocupada pra matar a curiosidade e procurar onde ficam esses lugares, continua a sua busca por destinos. E entre as possibilidades para um trajeto mais barato, estão Varsóvia e Viena. Mas por razões até então desconhecidas as benditas cidades quase nunca apareciam nas listas das companhias aéreas.

Foi então que, depois de dois dias procurando, resolvi consultar um mapa pra saber onde ficava aquela quantidade de cidade com nomes estranhos. Simplesmente descobri que as cidades citadas são respectivamente Varsóvia e Viena. E que os países são Áustria e Hungria...
[PALAVRÃO - o que você quiser, o que melhor se adequar ao contexto (isso é que é interatividade com o leitor!)]


Não sei descrever o que eu senti naquele momento. Caralho! Eu passei horas na frente do computador procurando um jeito barato de realizar o trajeto e, de repente, descubro que o que eu estava procurando estava ali. Só que com outro nome. E que nome! Quando, na minha vida, eu ia imaginar que Warszawa é Varsóvia, gente? Agora que eu já sei, eu até consigo achar uma semelhança [bem de longe]. Mas antes, nem no meu alto estado etílico, amiguinhos.

Agora eu me pergunto: quem foi a pessoa inteligente que resolveu mudar tão drasticamente o nome das cidades e dos países? Brasil com Z e Brasil S dá pra identificar tranquilo. Mas de Warszawa pra Varsóvia vamo combinar que alteraram a essência do nome. Por isso, eu acho que deveria haver um padrão internacional de nomes de países. E na escola deveriam ensinar esse padrão. Eu já tava me achando mega ignorante em geografia porque nunca tinha ouvido falar de um país chamado Magyarország.

Outro exemplo é a Holanda. Quer confusão maior? Holanda, Netherlands, Países Baixos. Juro que eu demorei a entender que Holanda e Países Baixos eram a mesma coisa. Pra mim Países Baixos eram vários países, tipo Escandinávia. E não um só. E Netherlands? Eu só sei que é Holanda por causa do álbum de figurinhas da copa.

É amigos, cada dia uma nova surpresa. Cada dia uma nova descoberta...

O gás

Quando o gás da sua casa acaba o que você faz?
Vai lá na porta da geladeira, procura no meio dos ímãs com telefone de tele-entrega de pizza; hamburguer; galão de água; o que tem formato de coqueiro, que a sua tia trouxe de lembrança de Fortaleza; o que o seu irmão fez na escola pra dar pra sua mãe de presente de Dia das Mães e aquele com formato de vaca, que faz "MUUUUU" se você aperta, que sua mãe comprou no auge da Ana Maria Braga na Record [mas que não faz "MUUUUU" mais porque já estragou], aquele com formato de botijãozinho, que tem o telefone do tele-gás, certo?! Aí você liga e pede pra entregarem na sua casa. Em no máximo duas horas o entregador toca a campainha, entra, tira o botijão vazio, coloca o cheio, pega o dinheiro e vai embora. Pronto! Você já pode usar o seu fogão normalmente.
Mas se engana quem pensa que é fácil assim em todos os lugares do mundo. Vou contar pra vocês o drama de quatro estudantes estrangeiras na Espanha. Tudo começou no sábado à tarde. Estávamos felizes cozinhando nosso almoço, quando de repente, o fogo começa a ficar fraco. Fraco, fraco. Fiquei na peleja alguns minutos, mas desisti. A comida já estava num ponto comível. Então desliguei o fogão e fui almoçar.
À noite, horário que as belgas fazem a refeição delas [elas não almoçam], eis que se ouvem gargalhadas na cozinha. Até aí nada de anormal, já que elas são muito felizes. Até que uma das Charlottes vem até a mim e pergunta se o gás tinha acabado. Eu disse que achava que sim, porque o fogo tava fraco a hora que eu fiz meu almoço. Aí ela perguntou como proceder. Eu logo pensei no imã de geladeira em formato de botijão. Mas aqui eles não têm imã de geladeira em formato botijão. Mas antes de chegar a essa conclusão pensei: "será que na Bélgica não tem tele-gás? Como eles fazem?".
Depois de algumas divagações mentais, lembrei que a dona do apartamento tinha deixado um papel com o nome da empresa que distribui as "bombonas de butano". Procurei o bendito do papel. Quando achei, tinha um número de telefone esquisito. Olhando melhor, percebemos que tinha uma data e que essa data era de 1900 e Guaraná de rolha. Descartamos. Então procuramos no catálogo. Mas como era final de semana, e para os Espanhóis o descanso é sagrado, deixamos pra ligar na segunda-feira. Enquanto isso viveríamos de lasanha de microondas.
Chegou segunda-feira. Tentamos ligar nos números do catálogo. Não atendiam. Estava na hora da siesta [outra divagação: pensa bem. Pra você descobrir que não tem gás, você tem que estar usando ou tentando usar o gás, certo? E qual a hora mais comum para se usar o gás? A hora do almoço, correto? Por isso, vai dando 11h, 11h30, você já ouve ao longe a musiquinha do caminhão de gás no Brasil, de acordo? Agora me explica como as distribuídoras de gás fecham na hora do almoço, gente?]. Os que atendiam diziam que não faziam entrega [todo mundo tem carro na Espanha, pra ir buscar o botijão?].
Pensamos em perguntar pra vizinha. Mas estava na hora da siesta [jamais toque a campainha na casa de espanhol na hora da siesta]. Resolvemos deixar pra mais tarde.
Chegou "mais tarde". Tocamos. Explicamos a situação e a mulher nos deu um número desses pra pedir informações. Ligando pra lá eles nos forneceriam. Só tinha um detalhe: o número só recebe chamada de telefones fixos e aqui em casa nós só temos celular. Isso já era segunda à noite.
Aí apelamos pra todos os recursos. Até no Facebook eu postei, perguntando se alguém sabia um número que a gente poderia ligar. Conseguimos um número que a gente ainda não tinha tentado. Mas já era terça-feira à noite...
Na quarta de manhã, outra tentativa. Agora sim! Deu certo. Mas eles só poderiam entregar no dia seguinte. É. Na Espanha eles são muito tranquilos. Depois de vários dias comendo lasanha de microondas, procurei uma receita na internet e fiz um macarrão de microondas, pra variar um pouco. Por incrível que pareça, ficou bom.
No dia seguinte, cheguei em casa na certeza de que poderia cozinhar. Mas me deram a notícia de que o cara chegou super mal humorado, colocou o botijão e já ia saindo sem "conectar" na mangueirinha. Aí pediram pra ele "instalar". Ele disse que não era função dele, que ele já tinha explicado mil vezes, fez uma demonstração rápida, pegou o dinheiro e foi embora. E largou o botijão sem instalar. E nenhuma de nós quatro sabia como fazer [as belgas não sabiam nem que tinha que ligar pra pedir um botijão!]. As meninas tentaram, mas o fogo não acendia. Ao que tudo indicava não estava vazando. Mas era melhor pedir pra alguém com "experiência" pra fazer pra gente, né?! Batemos no vizinho da frente, mas ele não estava..
Quando já tínhamos perdido as esperanças de almoçar, a campainha toca. Olhei no olho mágico. Não era a moça, Testemunha de Jeová, que sempre bate no nosso apartamento [toda vez que a campainha toca achamos que é ela]. Era o vizinho! Como se fosse a coisa mais simples do mundo, ele tirou o treco [sei lá como chama aquilo] e encaixou de novo no botijão. Testamos e deu certo!
Ufa! Depois de quase uma semana, podemos voltar a comer "decentemente".
E nada de lasanha de microondas por um bom tempo.


La Bombona!


*Anote este número: 923 222 200. Se você morar em Salamanca, ele poderá ser muito útil.