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Atravesse sem olhar

A organização do trânsito aqui é bem diferente. Não que o sinal verde seja para parar e o vermelho para seguir. Não. Digo no que diz respeito à relação entre os pedestres e os carros. No Brasil estamos acostumados a atravessar em qualquer parte da rua. A faixa de pedestres, na maioria das vezes, não representa muita coisa para os transeuntes. Mesmo que exista uma faixa dois metros a frente, nos embrenhamos no meio dos carros para atravessar. Outro costume é desrespeitar o sinal de pedestres.  Se não vem carro, pouco importa se o sinal está verde ou vermelho, atravessamos sem pestanejar.

Aqui não. Eles sempre atravessam na faixa. E respeitam o semáforo. A rua pode estar vazia. Nem sinal de automóveis. Eles param e esperam o sinal abrir. Mesmo que sejam 4h da manhã. A primeira vez que eu vivenciei uma situação semelhante, fiquei me perguntando "que diabos esses espanhóis tão esperando?". Cheguei a achar ridículo. Como assim ficar esperando o sinal abrir se não vem carro?

Reparem no canto direito que o sinal está vermelho. Mas não vinha carro nenhum e três pessoas estavam paradas esperando o sinal abrir


E tem mais. Às vezes eu confesso que não entendo a lógica da organização estabelecida, já que não foram poucas vezes em que eu fui atravessar e o sinal estava fechado para os pedestres, mas os carros também estavam parados (?). Então, ficávamos todos parados esperando nossos respectivos sinais abrirem.

Ainda não me acostumei com isso. Se não vem nenhum carro, eu atravesso. A não ser que muitos outros espanhóis estejam esperando. Digo isso, porque um dia o sinal estava fechado e tinha um senhor esperando para atravessar também. Como não vinha carro, eu fui. E o senhor chamou a minha atenção, acredita? Ainda assim tem alguns mais abusadinhos que não esperam o sinal abrir. Devem ser estrangeiros também.

Outra coisa que não estou acostumada é que os carros parem para que os pedestres atravessem. Você coloca o pé na faixa, o carro pára, mesmo que seja no meio da esquina. E isso é verdade. Não é história pra boi dormir não. Nós sempre ouvimos falar disso. Mas vivenciar é diferente. Como estamos habituados a outra realidade, é meio que um “choque”. Sempre que vou atravessar onde não tem sinal, páro para os carros passarem. E eles param que eu passe. É até engraçado.

Brinco que se eu dirigisse aqui, iria fazer boliche de pedestres, porque as pessoas às vezes nem olham. Vão atravessando. E como os motoristas brasileiros não estão acostumados a parar para os pedestres onde não tem sinal, seria um desastre. Na verdade eles estão certos. Mas eu ainda vou demorar um pouco pra incorporar essa cultura. E o problema maior vai ser quando eu chegar ao Brasil. Imagina eu atravessando a rua sem olhar?

A Sierra de Francia

Recebemos um presente no final de semana. Uma professora da Faculdade de Economia e Administração da UFJF está aqui fazendo doutorado. Como a Mylena faz administração, ficou sabendo disso e entrou em contato com ela. Afinal, brasileiro ajuda brasileiro.
Para a nossa surpresa, ela nos convidou para fazer um passeio pela região.

Visitamos a Sierra de Francia, que faz parte da Província de Salamanca. É um dos locais de maior tradição turística da província. É composta por vários povoados pequenininhos, mas com grande valor cultural, já que possui folclore, artesanato e gastronomia ricos. Sem falar das paísagens e da preservação da arquitetura medieval. São vários “pueblos”. Mas visitamos paenas dois: La Alberca e Miranda del Castañar.



Estivemos também em um dos pontos mais alto da serra, a Peña de Francia, com 1723m. No pico tem uma igreja e um antigo mosteiro. O local é ponto de peregrinação. No dia que nós fomos, uma excurssão de velhinhos estava fazendo uma visita.



Além de um mirante, onde está indicada a direção de várias cidades. Reza a lenda que nos dias mais claros é possível ver até Portugal (só esclarecendo, a região de Salamanca é bem próxima de Portugal. Não sei ao certo quantos quilômetros. Mas é pertinho mesmo). O local é conhecido como Parque Natural de las Batuecas.



A riqueza da arquitetura medieval, que permanece preservada, é impressionante. Vários becos, ruelas, muralhas, casas feitas de pedra e barro. Uma imersão na história. 


Ajudando a salvar o planeta

A consciência ecológica aqui é uma coisa interessante. A primeira vez que fomos ao supermercado ficamos surpresos. Quando passamos pelo caixa, a moça nos disse que teríamos que pagar pelas sacolas de plástico, já que não tínhamos aquelas sacolas ecológicas.

Cada sacola plástica custa 0,03 euros. Ao passo que uma sacola ecológica comum (existem também as de rodinhas) custa no máximo 0,50. Ou seja, a cada 16 sacolas de plástico é possível comprar uma ecológica. Compensa muito, já que precisamos fazer compras sempre. Então, além de economizar (por mais que seja pouco, esse pouco pode fazer diferença no final), ajudamos a salvar o planeta.

Não são todos os supermercados que cobram pelas sacolas. Mesmo assim, aqui na Espanha, pelo que eu pude perceber, a grande maioria das pessoas prefere as sacolas ecológicas. Até porque, andando pelo mercado não se vê muito aqueles carrinhos enormes e lotados de comida. Parece que as pessoas compram de pouco em pouco. Não fazem compra do mês, como no Brasil. Assim, é possível carregar o que se comprou nas sacolas ecológicas.

Não sei em que pé está a legislação que proíbe o uso de sacolas plásticas no Brasil. Mas sei que em alguns lugares do nosso país a lei já está valendo. Os estabelecimentos ainda têm um prazo para se adequar. Mas, creio que, para que essa legislação funcione, será necessário fazer algo parecido com o que há aqui. Neste processo de transição, talvez seria interessante que os mercados cobrem um valor simbólico pelas sacolas de plástico. Afinal, nós sabemos bem que só mexendo no bolso as pessoas se mobilizam. Se elas tiverem que pagar, vão pensar duas vezes antes de optar pelas sacolsa convencionais. Assim, até o final do prazo estabelecido, grande parte dos consumidores já teria a sua sacola ecológica e teria mudado seus hábitos.

Não sei como seria a recepção de uma medida desse gênero pelos consumidores. Mas é uma alternativa a se pensar.



Eu já comprei as minhas. Duas!